Economia & Mercados
17/11/2023 10:25

Entrevista/Bradesco/Fabri: Selic de 2 dígitos é boa para retomada do mercado de capitais


Por Aline Bronzati, correspondente

Nova York, 16/11/2023 - Depois de vivenciar a maior secura de sua história recente, o mercado brasileiro deve voltar a ser palco de novas aberturas de capitais no primeiro semestre de 2024. Entre ofertas iniciais e secundárias, os chamados 'IPOs e follow ons' no jargão dos bancos de investimento, a expectativa do Bradesco é de que o volume alcance R$ 50 bilhões em 2024, bem acima dos cerca de R$ 31 bilhões deste ano.

O cenário de queda dos juros no Brasil e a fila de empresas prontas sustentam um viés positivo para o mercado, segundo o vice-presidente responsável pelas áreas de atacado do Bradesco, Eurico Fabri. O banco vê a Selic em 9,25% no próximo ano, exato patamar que ajudou a turbinar as ofertas de ações no último ciclo de relaxamento monetário no País. "A Selic caindo abaixo de dois dígitos é bom para a retomada", diz Fabri, em entrevista ao Broadcast.

Por outro lado, ele não vê o quadro fiscal do Brasil, cujas incertezas foram agravadas após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter condenado a meta de 2024, atrapalhando a retomada. "Todo esse período que nós ficamos sem IPOs criou um estoque de empresas que estão prontas, que estão na fila. Reunindo aqui os elementos necessários, o mercado vai reabrir", afirma Fabri. Abaixo, os principais trechos da entrevista:


Foto: Egberto Nogueira/Divulgação

Broadcast: A emissão de títulos de dívida sustentáveis do Brasil pode servir de referência para empresas brasileiras captarem no exterior?

Fabri:
Já temos um movimento forte de empresas brasileiras emitindo no exterior com esse selo de sustentabilidade. Certamente, a emissão do governo vem reforçá-lo e, de alguma forma, abrir ainda mais o mercado para esse tipo de título, que o Brasil tem uma vocação natural seja pela parte ambiental ou social. Vejo inúmeras oportunidades no Brasil para esse tipo de estrutura.

Broadcast: Qual a expectativa de crescimento desse mercado?

Fabri:
No ano que vem, a gente acredita que as emissões de empresas brasileiras atinjam algo por volta de US$ 20 bilhões, o que deve representar um crescimento de 20% a 25% frente a 2023. A representatividade [de títulos sustentáveis] vem aumentando. No ano passado, foi um ano mais fraco, e isso representou 20%. Neste ano, já vai passar para 25%. Para o ano que vem, deve ser um terço ou mais dos US$ 20 bilhões. Eu espero que, depois desse empurrão do governo, a maior parte das emissões comece a ter esse componente.

Broadcast: O CPI nos EUA reforçou o discurso 'dovish' da última reunião do Federal Reserve (Fed, o banco central americano). Como o cenário externo influencia na retomada de aberturas de capital no Brasil?

Fabri:
A gente nunca passou um período tão longo sem IPOs no mercado brasileiro. Com esse cenário, de contas externas mais robustas, inflação controlada, juros em queda, mercado de trabalho resiliente, aumento da massa salarial, enfim, fim do ciclo de inadimplência, a gente acredita que vai gerar os elementos necessários para a reabertura do mercado no primeiro semestre do ano que vem.

Broadcast: E como deve ser essa reabertura?

Fabri:
É óbvio que para essa reabertura vão ser nomes com teses consolidadas, empresas resilientes, com geração de caixa consistente e que tenham massa crítica para poder reabrir o mercado. A questão é o apetite a risco no ano que vem. Será um ano para adicionar rentabilidade e, consequentemente, risco ao portfólio, então, devemos ver um movimento de saída um pouco da renda fixa para a renda variável. Isso deve abrir oportunidade para as empresas. Agora, está justamente em um ponto de inflexão no ciclo de juros, onde vai começar a voltar um pouco de recurso da renda fixa para a renda variável.

Broadcast: Qual nível de Selic é necessário para o mercado de capitais ter uma retomada consistente?

Fabri:
O banco vê a Selic em 9,25% para o ano que vem. No ciclo anterior de corte de juros, o volume do mercado de capitais já começou a subir bastante quando os juros estavam nesse patamar e caindo. Em 2018 foram R$ 11 bilhões e em 2019 já foram R$ 90 bilhões. A Selic caindo abaixo de dois dígitos é boa para a retomada.

Broadcast: Qual a expectativa para ofertas de ações no Brasil no ano que vem?

Fabri:
A gente tem aqui uma estimativa de R$ 50 bilhões para ofertas de ações [IPOs e follow ons] no ano que vem, com um viés positivo para esse número, porque nesse cenário de dois anos sem IPOs a gente teve no ano passado R$ 58 bilhões. Esse ano vão ser R$ 31 bilhões, eu acho que esse nos parece um número bastante atingível para o ano que vem.

Broadcast: Mas o quadro de incerteza fiscal no Brasil não atrapalha?

Fabri:
Não estou vendo isso como impeditivo, algo que retarde esse processo. Eu vejo responsabilidade fiscal do governo, é uma preocupação, o tema está na pauta, está sendo discutido. Essa variação [na meta fiscal] de alguma forma já estava precificada e a gente não vê isso como um impeditivo para esses movimentos de mercado de capitais. É importante dizer que todo esse período que nós ficamos sem IPOs também criou um estoque de empresas que estão prontas, que estão na fila. Reunindo aqui os elementos necessários, o mercado vai reabrir.

Broadcast: De Wall Street à Faria Lima, os bancos de investimento têm sido desafiados por um mercado de capitais mais devagar. Como o Bradesco tem contornado a maré baixa?

Fabri:
Estamos batendo o recorde de receita no banco de investimento, que tem uma diversificação de negócios muito grande, mas o foco está especialmente voltado para os produtos de renda fixa, onde há uma demanda muito grande e temos participado de operações muito relevantes. O volume do mercado caiu 28% nos nove primeiros meses deste ano comparados com 2022, segundo a Anbima. Nesse mesmo período, a receita de Investment Banking do Bradesco BBI cresceu 32,5%. Atingimos a nossa receita recorde no período e, mantida essa tendência, teremos o melhor ano na história do Bradesco BBI. Além disso, temos fortalecido a integração entre o atacado, o banco de investimentos e a nossa plataforma de wealth management. Isso tem funcionado muito bem.

Broadcast: Qual a expectativa do banco para o mercado de dívida local?

Fabri:
O mercado de dívida local passou de R$ 160 bilhões em 2017 para R$ 460 bilhões no ano passado. Neste ano, o primeiro semestre foi mais devagar, mas agora está compensando no segundo. Vai acabar não batendo o volume do ano passado, mas a gente acha que 2024 é um outro ano fortíssimo para a renda fixa de novo, com as emissões atingindo R$ 450 bilhões contra R$ 380 bilhões neste ano.

Broadcast: Na alta renda, o banco fez várias aquisições. Ainda há mais apetite?

Fabri:
Essa é uma estratégia que o banco vem consolidando ao longo do tempo. Tivemos a aquisição do HSBC, o Bradesco Bank na Flórida, duas parcerias importantes do Private Bank com o JPMorgan e o BNP, e também uma sociedade com a BV Asset, com a criação da Tivio. Somos muito sólidos no nosso banco popular, de baixa renda, e a gente entende que ampliar a participação no segmento de alta e altíssima renda é muito importante para consolidar e dar estabilidade à estratégia, com um segmento que você capta mais para outro que você empresta mais, então, você cria um equilíbrio entre ativos e passivos. A alta renda é mais resiliente a crises, então, faz parte da nossa orientação estratégica de crescer e nos fortalecer nesta área.

Broadcast: E qual o tamanho que o banco busca? Estão previstas mais aquisições no pipeline?

Fabri:
O nosso Private hoje tem um market share de 22%. O nosso objetivo é chegar a 30% de market share em 2026. E esse crescimento será orgânico e inorgânico. Aquilo que fizer sentido a gente tem apetite para fazer novas parcerias ou eventualmente aquisições de ativos. A gente tem investido fortemente na qualificação da nossa equipe, na ampliação da nossa plataforma e entende que parte relevante do crescimento do Private vai ser offshore (do exterior).

Broadcast: Ainda na pauta verde, bancos estão estruturando mesa de crédito de carbono no exterior, mas já há casos também no Brasil. O Bradesco terá uma? Qual a estratégia?

Fabri:
É claramente um tema que o banco vem estudando e o banco pode atuar de várias formas. A mesa de intermediação de crédito de carbono é uma, o financiamento de projetos sustentáveis é outro, o desenvolvimento de projetos que gerem crédito de carbono é outro. Todos esses temas estão na nossa pauta.

Broadcast: O FMI alertou para onda de calotes corporativos globais em sua última reunião anual. Como vê esse risco no Brasil na esteira da crise de crédito gerada pela Americanas?

Fabri:
Quando a gente olha o atacado, grandes empresas, eu diria que no Brasil não tem esse risco. Os riscos no Brasil estão todos mapeados, são conhecidos. Tudo o que já passou pela arrebentação é bem conhecido pelo mercado. Com o juro caindo, a tendência é melhorar.

Contato: aline.bronzati@estadao.com
Para ver esta notícia sem o delay assine o Broadcast+ e veja todos os conteúdos em tempo real.

Copyright © 2024 - Todos os direitos reservados para o Grupo Estado.

As notícias e cotações deste site possuem delay de 15 minutos.
Termos de uso