Economia & Mercados
29/05/2024 16:25

Especial: atraso no pagamento de dívidas acende alerta nos EUA, mas risco parece contido


Por Maria Lígia Barros

São Paulo, 21/05/2024 - Em meio a uma economia surpreendentemente aquecida e um crédito aparentemente saudável das famílias americanas, emerge um pequeno sinal de estresse financeiro nos Estados Unidos. O atraso nos pagamentos de empréstimos para automóveis e dívidas de cartão de crédito tem chamado a atenção de observadores do mercado e do próprio Federal Reserve (Fed). O risco, contudo, ainda parece contido e não deverá trazer implicações para a trajetória de juros dos EUA no curto prazo, segundo analistas ouvidos pelo Broadcast.

O relatório do Fed de Nova York sobre crédito e dívida das famílias do primeiro trimestre, divulgado no último 14, renovou o alerta: as taxas de empréstimos para automóveis e dívidas de cartão de crédito que estão na transição para "inadimplência grave" aumentaram em todas as faixas etárias nos três primeiros meses de 2024.

"Um número cada vez maior de tomadores de empréstimos deixou de pagar o cartão de crédito, revelando o agravamento das dificuldades financeiras de algumas famílias", afirmou a economista do Fed de Nova York Joelle Scally, em comunicado à imprensa. Uma das diretoras do Fed, Lisa Cook, também comentou o assunto recentemente e disse estar monitorando de perto esses dois segmentos.

Mas, por ora, a questão não representa uma grande ameaça para a economia americana, de acordo com a avaliação do analista Matthew Martin, da Oxford Economics. "Certamente não é algo a se ignorar, mas no momento eu não diria que isso vá influenciar as decisões do Fed", afirma ao Broadcast.

O economista destaca que as duas modalidades respondem por uma pequena porção do total de dívidas dos consumidores nos EUA. "Quase 75% dos débitos estão relacionados a hipotecas e empréstimos de home equity, e no momento esses parecem estar em boas condições", aponta. Além disso, diz ele, as taxas de delinquência estão apenas um pouco acima de níveis historicamente baixos, refletindo um maior consumo nos últimos anos em vez de fraqueza severa, na sua análise. "O maior risco seria se houvesse uma reversão significativa no mercado de trabalho", ponderou. "No entanto, não vemos sinais de que essa virada esteja no horizonte."

Normalização após níveis baixos

A Oxford vê o movimento como uma normalização dos níveis de delinquência historicamente baixos durante a pandemia, complementa o economista Bernard Yaros. Com os bolsões de estresse concentrados principalmente entre jovens e pessoas de baixa renda, a consultoria não está tão preocupada com riscos mais amplos para a economia em geral, diz ele. "Em vez disso, nos concentramos nos fundamentos, que são amplamente favoráveis para os gastos do consumidor no agregado: aumento da riqueza, um mercado de trabalho sólido, ganhos reais de salário e baixos índices de serviço da dívida", afirma, em comentário enviado à reportagem.

Consultor econômico do Remessa Online, André Galhardo também não acha que a questão terá algum impacto na trajetória de juros americana. "A inadimplência em si não deve desmobilizar o Fed na missão de manter taxas de juros inalteradas até que se tenha mais confiança na desinflação", afirma, ao Broadcast.

Galhardo lembra que recentemente houve um aumento no volume do uso de cartão de crédito nos últimos anos, inclusive para pessoas com menor capacidade de pagamento, o que naturalmente ampliaria riscos de inadimplência. "Há um ano falávamos sobre o uso exacerbado dessa modalidade de crédito", recorda. "Embora o mercado de trabalho esteja sobreaquecido, a gente está vendo que são atividades de remuneração menor. Isso expõe a população à necessidade de tomar crédito”, contextualiza.

Contato: maria.ligia@estadao.com
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