Economia & Mercados
11/05/2022 12:31

Exclusivo/CNC: E-commerce fatura quase R$ 300 bi em 2021, com 70% das vendas de bens duráveis


Por Daniela Amorim

Rio, 10/5/2022 - O comércio eletrônico brasileiro faturou R$ 294,8 bilhões em 2021, sendo mais de 70% desse volume concentrado em apenas duas atividades, que vendem, basicamente, móveis, eletrodomésticos, equipamentos de informática e aparelhos de telefone celular, mostra um levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens Serviços e Turismo (CNC) feito a pedido do Broadcast.

Entre as grandes empresas do varejo ampliado brasileiro (que inclui também os segmentos de veículos e material de construção), 81,4% mantinham vendas via comércio eletrônico neste início de ano, ante uma proporção de 58,4% entre as companhias médias e 53,2% nas micro e pequenas empresas varejistas, aponta um estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV) obtido também com exclusividade pelo Broadcast.

Os anúncios de governo para estimular o consumo melhoram as perspectivas para as vendas em 2022. No entanto, a normalização na circulação de consumidores pelas cidades diante do arrefecimento da pandemia e o encarecimento do crédito em meio às pressões inflacionárias devem desacelerar o ritmo de crescimento do comércio online em 2022.

"O varejo eletrônico ainda crescerá a dois dígitos em 2022, entre 10% e 15%. Como o mote este ano é menos a crise sanitária e mais a inflação, o que vai ditar as vendas é preço, e o varejo eletrônico tem essa facilidade de pesquisa de preços", prevê o economista Fabio Bentes, responsável pelo estudo da CNC.

O economista da CNC pondera que o resultado do comércio eletrônico este ano será mais morno do que os de 2020 e 2021, quando o e-commerce foi turbinado pelas características extraordinárias da pandemia de covid-19 no País. No pré-pandemia, em 2019, as vendas online respondiam por 6,2% do faturamento do varejo brasileiro. Essa fatia subiu a 9,9% em 2020, avançando a 11,1% em 2021.

"O cenário macroeconômico não é muito positivo. As famílias estão com a renda muito comprometida, e o mercado de trabalho não parece dar sinais de reação muito fortes do ponto de vista do poder aquisitivo e da renda, então é uma situação ainda incerta", pondera o economista Rodolpho Tobler, do Ibre/FGV.

Para o diretor de Operações da consultoria de varejo Gouvêa Ecosystem, Eduardo Yamashita, o varejo físico deve continuar, na média dos setores, "andando de lado", enquanto o eletrônico permaneceria como grande canal puxando o crescimento como um todo, apesar da participação minoritária.

"Na nossa visão, esse ano será muito desafiador ainda para o segmento (do varejo) como um todo. O cenário macro não favorece, nem o interno nem o externo", lembra Yamashita. "O primeiro e o segundo trimestres vão ser bons em termos de desempenho, mesmo com os desafios. Agora, com as instabilidades que estão acontecendo globalmente, possíveis bolhas que podem estourar no segundo trimestre, e eleição, a gente deve continuar observando esse cenário muito instável", alerta.

O estudo da CNC calcula que, no primeiro trimestre de 2022, o Brasil registrou uma abertura líquida de mais de 58 mil estabelecimentos varejistas.

"Como não temos visto nas ruas esse volume de abertura de lojas físicas, dá para deduzir que boa parte desse saldo está sendo puxada pelo boom de comércio eletrônico. Provavelmente a maioria é de lojas virtuais", avaliou Bentes.

Em janeiro de 2022, 63,5% das empresas do varejo ampliado realizavam vendas online, ante uma fatia de 50,3% do pré-pandemia, mostra um quesito especial da Sondagem do Comércio, da FGV, obtido pelo Broadcast.

A participação do comércio online nas vendas do varejo aumentou ao longo da pandemia, chegando a responder por 21,2% do total vendido pelo setor em junho de 2021. No início de 2022, a FGV calcula que apenas 11,2% das vendas eram feitas através do comércio eletrônico, nível próximo ao nível pré-pandemia (de 9,2%). Embora o comércio online siga em expansão, há uma perda de participação dessa modalidade decorrente da normalização do consumo presencial, viabilizado pelo avanço da vacinação contra a covid-19 e pelo arrefecimento da pandemia.

"As empresas de maior porte tiveram mais facilidade para essa adoção (de vendas online), principalmente no primeiro momento, mas em todos os portes ela se mostrou um caminho alternativo e sugerindo que no futuro essa estratégia pode ter vindo para ficar em muitas empresas mesmo que em um patamar menor com a pandemia ficando para trás", ressaltam os pesquisadores Raphael Vianna e Rodolpho Tobler, autores do estudo do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (Ibre/FGV).

Setores

Em 2021, a cada R$ 100,00 gastos no comércio eletrônico, cerca de R$ 70,70 foram investidos na aquisição de produtos nos setores de móveis e eletrodomésticos e equipamentos e materiais para escritório, informática e comunicação, aponta o levantamento da CNC. Essas duas atividades concentraram 70,7% do faturamento do varejo restrito, ou seja, basicamente bens de consumo duráveis: foram R$ 127,1 bilhões em vendas de equipamentos de informática e comunicação e mais R$ 81,4 bilhões em móveis e eletrodomésticos.

Embora responda por quase metade das vendas do varejo nacional, o setor de supermercados faturou R$ 10,5 bilhões online, à frente apenas do segmento de livros e papelaria (R$ 6,9 bilhões). Os demais setores que faturaram via comércio eletrônico no ano passado foram tecidos, vestuário e calçados (R$ 30,3 bilhões), artigos farmacêuticos, perfumaria e cosméticos (R$ 21,2 bilhões) e outros artigos de uso pessoal e doméstico (que inclui as lojas de departamento, com R$ 17,3 bilhões). O varejo de combustíveis e lubrificantes praticamente não possui vendas online. O estudo tem como base informações da Receita Federal, IBGE, MCC-ENET e da própria CNC.

Considerando o volume de vendas do varejo como um todo, presencial e eletrônico, a entidade revisou a previsão de expansão para o ano de 2022, de um avanço de 1,1% para alta de 1,5%. A expectativa é que o desempenho do segundo trimestre seja impulsionado pela liberação pelo governo de saques extraordinários do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), antecipação do 13º salário a aposentados e pensionistas e pagamentos do Auxílio Brasil. Fabio Bentes lembra que, embora as medidas alimentem as pressões inflacionárias, os recursos extras devem injetar R$ 39 bilhões no varejo ao longo de 2022.

Segundo Eduardo Yamashita, da Gouvêa Ecosystem, empresários varejistas têm se queixado de uma pressão "enorme" de inflação sobre os negócios, o que até aumenta o faturamento, porém reduz as vendas em volume. Outro desafio é a estagnação da massa de rendimentos dos trabalhadores em circulação na economia.

"Você tem, em termos de tamanho do consumo, o tamanho do bolo (massa de renda) estável nos últimos cinco anos, o que não é bom. Porque boa parte do crescimento do consumo vinha do crescimento desse bolo. Você tem aumento da população, e necessariamente você deveria ter aumento da massa salarial também. Então o tamanho do bolo para ser consumido está literalmente o mesmo nos últimos cinco anos, mas com uma população crescente, aí o resultado é o óbvio: você tem o rendimento médio no pior patamar da série histórica e o empobrecimento das famílias de uma maneira geral", explicou Yamashita.

A Sondagem da Confiança do Consumidor apurada pela FGV mostrou melhora nas perspectivas dos brasileiros sobre a economia e as finanças familiares, mas a intenção de compras de bens duráveis permaneceu "fraca e com tendência indefinida". O Índice de Confiança do Consumidor avançou 3,8 pontos em abril ante março, para 78,6 pontos, na zona considerada desfavorável, abaixo de 100 pontos. O item que avalia o ímpeto para aquisição de bens de consumo duráveis estava em 67,7 pontos em abril, também na zona de pessimismo.

Contato: daniela.amorim@estadao.com
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