Economia & Mercados
17/02/2022 11:00

Empresas recorrem a fusões e aquisições para contornar escassez de talentos tech


Por Elisa Calmon

São Paulo, 16/02/2022 - A escassez de talentos na área de tecnologia fez crescer no Brasil uma tática adotada em outros países na batalha por profissionais qualificados: a chamada Acqui-Hiring, operações de fusões e aquisições que têm como principal objetivo incorporar mão de obra. Enquanto a oferta de profissionais está longe de suprir a demanda, equipes já estruturadas são vistas como um ativo mais valioso para as empresas.

A estratégia abrange todos os setores, de empresas como a Sinqia, de software para o mercado financeiro, até a corretora Warren, mas tem ajudado a impulsionar sobretudo negócios na área de tecnologia. Em 2021, as techs fizeram 945 fusões e aquisições (entre anunciadas e fechadas), ou pouco mais de um terço do total das transações. As operações movimentaram R$ 78 bilhões segundo estudo da Transactional Track Record (TTR).

No cenário global, também uma em cada três empresas compradas no ano passado eram do setor de tecnologia, segundo a Bain & Company. O sócio da consultoria, Luis Frota, atribui essa realidade em parte ao aumento da busca por talentos. "A capacidade tecnológica é um parâmetro importante, assim como os negócios. No entanto, a qualidade do time está em pé de igualdade ou tem até mais peso em alguns casos", diz.

Ainda é cedo para falar em apagão de mão de obra no Brasil, mas a percepção de que isso pode se concretizar em um futuro próximo, tem acirrado a corrida por fusões e aquisições, corrobora Caio Abreu, head de pessoas da Sinqia. Para ilustrar, ele cita a aquisição do braço de administração de previdência da Mercer Brasil, no meio do ano passado. "A expertise da equipe, formada por 100 colaboradores, foi decisiva". A transação de R$ 35 milhões foi uma das nove promovidas entre 2020 e 2022 pela fornecedora de softwares para o mercado financeiro.

Startups x Corporações

Para os especialistas, a aceleração do processo de digitalização imposta pela pandemia também pesa. Nesse cenário, apontam que a cultura mais inovadora das startups acaba as tornando uma boa opção de compra para empresas de grande porte que precisam fazer essa transição de forma ágil. No ano passado, 281 startups brasileiras foram adquiridas, 70% a mais que no ano anterior, de acordo com a Sling Hub, plataforma que reúne 3 milhões de dados sobre o ecossistema na América Latina.

Mais capitalizadas, as próprias startups também vão às compras. Em 2021, apareceram na ponta compradora de cerca de 50% das operações de fusões e aquisições, segundo a Sling. "Quanto mais capital levantam, mais rápido precisam crescer para justificar os aportes. Uma forma de fazer isso é comprando uma empresa com um time já atuante", afirma o CEO da Sling, João Ventura. Ele destaca que mais de 100 mil pessoas passaram a integrar o time das startups nacionais em 2021.

O chefe de recursos humanos da Omie, Luiz Felipe Massad, explica que para fechar um negócio, a startup analisa quanto tempo e funcionários seriam necessários para desenvolver uma solução ou produto internamente em comparação ao custo de uma compra. "No caso da Conpass, por exemplo, encontramos a combinação de um produto que melhora a jornada do cliente junto com 20 pessoas super preparadas para incluir essa solução no nosso sistema", afirma o representante da startup de gestão para nuvem sobre a aquisição mais recente anunciada pela companhia, a quinta desde 2020.

No início da semana, foi a vez da Warren, que contratou a equipe de tecnologia da plataforma de investimentos sim;paul, formada por 40 profissionais. Com a nova leva, a corretora passou a ter cerca 280 funcionários focados no setor, próximo de 40% do total da equipe. "Não tem mágica: pessoas podem realizar coisas incríveis e mudar o paradigma de mercados inteiros, por isso mantemos o radar ligado para que o nosso time seja referência em excelência em inovação", diz o CTO, André Gusmão.

Retenção e Captação

"A inclusão dos novos funcionários precisa ser levada tanto em consideração quanto os pontos legais e financeiros da transação", afirma Luis Frota, sócio da Bain & Company, destacando a importância de fornecer uma sensação de pertencimento. Com isso, a questão salarial acaba ficando em segundo plano. "Não dá para amarrar um profissional de tech. Ele quer autonomia, flexibilidade e senso de propósito no que faz", afirma Luiz Massad, da Omie

Uma estratégia comum para reter e captar talentos é o investimento em capacitação. A Sinqia, por exemplo, em parceria com a escola Let's Code, financiará 30 bolsas de 100% para formação em Back-end Java voltada para pessoas sem experiência prévia no mercado. Em duas semanas, foram mais de cinco mil inscritos.

Já a Positivo Tecnologia firmou parceria com a Kenzie Academy para oferecer 90 bolsas de estudos para o curso de programação Full Stack. O valor de R$22 mil será integralmente coberto pela empresa para os alunos selecionados, com foco nos estados da Amazônia Ocidental e Amapá. "Em Manaus, onde temos fábrica, as vagas para o setor são umas das que têm mais dificuldade em encontrar mão de obra especializada e o não preenchimento está diretamente ligado à falta de capacitação", explica o diretor de Tecnologia da Informação da Positivo, Júlio Guapo.

Contato: elisa.ferreira@estadao.com
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